Quem consegue tirar férias tranquilo? (Valor Econômico)

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Desafio%20de%20Férias[1]“Vai tirar férias agora?” A pergunta, comum nos corredores das grandes companhias, ganhou um peso a mais com a crise. Especialistas afirmam que, em um ano marcado pela instabilidade econômica e com as corporações enxugando operações, os executivos penam para abandonar as atividades do escritório e se desligar totalmente durante as folgas. A tendência, nos próximos meses, é que as férias dos gestores se tornem cada vez mais curtas e espaçadas para não impactarem na produtividade das empresas.

Segundo Márcia Almströn, diretora de estratégia e talentos do ManpowerGroup, a intenção de adiar as temporadas de descanso e o receio de ficar fora por muito tempo estão crescendo nas organizações. “Há um aumento da preocupação com as responsabilidades do trabalho e a manutenção do emprego”, diz. “Hoje, a disputa por uma colocação é acirrada e quem está contratado se empenha em preservar a sua performance.”

Para conseguirem aproveitar o descanso merecido, os executivos dividem o tempo de lazer em períodos curtos durante o ano, evitam estar longe nas semanas de reuniões estratégicas e planejam os dias de ausência meses antes das férias. Mesmo em viagens, costumam listar casos críticos em que a equipe substituta pode acessá-los por e-mail ou telefone.

“Tempos de crise requerem atenção redobrada por conta da maior pressão por resultados”, justifica Márcia. “É uma fase mais difícil para planejar os períodos de ausência. Os executivos procuram ser cautelosos, escolhem as folgas para fases de menor demanda do negócio e levam em conta a possibilidade de uma conexão remota, mesmo nas férias.”

Para iniciar uma temporada de lazer mais tranquilo, Fernando Rodrigues, diretor de vendas da Mars Brasil, dona das marcas de chocolates M&M’S e Snickers, monta uma estratégia baseada em três pontos: faz um planejamento de longo prazo, organiza a equipe para cobri-lo durante o afastamento e escolhe períodos de descanso longe de datas importantes da área comercial.

“Em novembro, meu time trabalhou muito para refinar toda a estratégia que vamos executar até abril de 2017”, diz. “Graças a isso, tomamos decisões para executar planos de investimento logo no início do ano.”

Na companhia há 12 anos, ele costuma agendar as férias em períodos curtos, duas vezes ao ano. Neste final de 2016, saiu no dia 19 de dezembro e volta 9 de janeiro. A última folga do ano foi em julho, para coincidir com o recesso escolar dos filhos. “Preciso estar disponível no começo do período para comunicar estratégias a clientes e funcionários. Isso incluiu desde o time local ao gerente regional sênior e o promotor de vendas baseado a três mil quilômetros da sede”, explica. Também não consigo sair em outubro e novembro antes de aprovar os planos para o ano seguinte, diz. “Um executivo que não sabe o que vai impactar o seu negócio com antecedência não tem como estar seguro nas férias.”

A Mars tem mais de 2,5 mil funcionários no país. Dona de um faturamento global de US$ 35 bilhões, pretende investir cerca de R$ 1 bilhão no mercado nacional, até 2020. A verba será distribuída na ampliação da capacidade de produção e em uma nova unidade em Ponta Grossa (PR), de fabricação de alimentos para animais de estimação, outro segmento da companhia. Até 2018, somente a divisão de chocolates, onde Rodrigues trabalha, deve receber aportes de R$ 500 milhões, boa parte para uma planta em Guararema (SP).

“Estamos vivendo um cenário de instabilidade econômica em que as coisas mudam a todo momento”, avalia. “O papel do líder é direcionar onde o negócio deve ir, com decisões de longo prazo, enquanto as agendas de curto prazo são conduzidas pela equipe.”

Segundo Rodrigues, que lidera nove executivos e gerencia, indiretamente, 322 profissionais, a companhia não fez cortes de pessoal motivada pela recessão. “Ao contrário. Em 2016, contratamos 52 pessoas para o departamento de vendas do segmento de chocolates, balas e alimentos”, diz. “Por outro lado, a desaceleração econômica gerou uma redução na expectativa de crescimento”.

Mas, com um planejamento já costurado, o objetivo de Rodrigues é se desconectar 100% nas férias – ou quase isso. “Não pretendo monitorar ações remotamente”, diz. “Deixei uma lista de temas que, se algo crítico acontecer, posso ser acionado.”

Márcia, do ManpowerGroup, diz que a preocupação de pedir folga na crise está generalizada em vários setores. “O desafio das organizações é comum neste cenário e todas têm direcionamentos como a redução de custo e do número de empregados”, diz. “Isso traz, naturalmente, uma sobrecarga para os que estão trabalhando.”

A especialista destaca que muitos executivos repensam datas ou até desistem dos dias de repouso. “Compromissos importantes ligados a questões estratégicas podem alterar a programação”, diz. “Nessas condições, há cancelamento de folgas já planejadas ou adiamento.”

Geralmente, o nível gerencial utiliza 10 e 20 dias de férias em momentos diferentes, sendo que boa parte dessa faixa opta por sair 20 dias e receber o abono de dez, explica. Nos patamares de diretoria e alta liderança, a tendência é usufruir de dez a 15 dias em datas alternadas, aproveitando as paradas escolares. “Alguns executivos precisam estar conectados, recebendo e-mails ou participando de alguma conferência, quando necessário”, diz Márcia.

É o caso de Brenda Donato, gerente da área de pessoas e resultados da administradora de consórcios Embracon, com três mil funcionários. Apesar de deixar todos os compromissos organizados antes da temporada de descanso, se ocorrer algo inesperado que exija a intervenção dela, a equipe pode entrar em contato via WhatsApp, e-mail ou telefone. “Dependendo dos acontecimentos internos, o momento das férias, ao mesmo tempo tão esperado, pode ser um grande ‘martírio’”, diz. Em 2017, a área de Brenda já está envolvida em um projeto de migração do sistema de folha de pagamento, previsto para fevereiro.

Ao longo de mais de dez anos como executiva de RH, o planejamento de Brenda antes das férias inclui a divisão do tempo de lazer em dois períodos anuais, um em cada semestre, além de um cronograma de atividades que deve ser fechado antes da saída. “Mantenho um plano com a equipe, feito sempre no mês de setembro de cada ano, para evitar interrupções de entregas nos dias de ausência.” A gerente coordena três outras gestoras, em uma área com 42 profissionais, entre supervisores, analistas e assistentes.

As próximas férias estão marcadas para março de 2017, quando fará uma viagem de cinco dias aos Estados Unidos com a mãe e a sogra. “Vamos comprar um vestido de noiva porque me caso em outubro, mês da outra metade das férias.” A segunda temporada de lazer, de 15 dias, inclui a lua de mel, com planos de ir à França e Itália. “Com alguma organização, as atividades pessoais podem acrescentar experiências valiosas ao dia a dia de trabalho”, garante.

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